sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Oscar 2018: Trama Fantasma



Trama Fantasma é aquele filme inteligente que, nos primeiros dez minutos, já apresenta o personagem, a dinâmica das suas relações e nos deixa (pelo menos me deixou) profundamente intrigados e vinculados com a história. Um crítico do New York Times escreveu: “eu só vi este filme uma vez (...), e tenho certeza de que tem suas falhas. Eu ficarei feliz em ver mais uma dúzia de vezes até encontrá-las”. Também me sinto assim, mal posso esperar pra revê-lo.

Primeiro de tudo: é um filme bonito. O elenco impecável, a fotografia hipnótica, os ambientes e figurinosluxuosos, os enquadramentos, a trilha, tudo belo. Cada mergulho é um flash. As cenas parecem coreografadas, há uma certa intencionalidade insinuada no movimento dos atores que prende o olhar. O melhor e mais aliciante do filme é que ele não tem clímax, reviravoltas, plotseiquelá, o que se tem é repetição e sua íntima relação com o gozo* e com a pulsão de morte.

As metáforas são de uma extrema delicadeza, mensagens secretas costuradas no forro do filme. Votos. O amor sob medida. O humano sob escrutínio. A recusa de se mostrar em contraponto ao ambiente de exposição constante. O amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer. E desequilibra. Ele é um menino faminto. Em miragem, mulheres tentam saciá-lo. Além de impossível, indesejável. É a falta que nos move. Melhor juntar a fome com a vontade de comer, não com a barriga cheia. Na incompreensão disto, um amor torto que se sustenta no regurgitar.

Eu não saberia dizer sobre o que é o filme. Li por aí que é uma espécie de história de amor – mas todas não são? Pelo menos uma tentativa de? Nada do que é humano me é estranho. Talvez seja uma história de solidão. Do impossível de ser só. E de não ser só. Uma história de perda do que nunca existiu. Desamparo. “Você está aqui? Você está sempre aqui? Sinto sua falta. Eu penso em você o tempo todo”.

PS. Saí do filme pensando em Lua de Fel. Também lembrei de Rebecca, mas aí não tem graça porque depois li que o diretor fez pensando no filme do Hitch mesmo (e daí já fiquei pensando: será que tinha lido isso antes?).


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Depois de ver quase tudo das categorias Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Original, meu coração bate assim (é um ranking afetivo, não técnico): Me Chame pelo Seu Nome >> The Post = Dunkirk = Trama Fantasma > Eu, Tonya >>> A Forma da Água >> Três Anúncios para um Crime > Lady Bird = O Destino de Uma Nação > Corra!

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Estou escrevendo sobre filme e respirando, mas meu juízo tá mesmo é na intervenção federal no Rio de Janeiro. 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Vespeiros

Nem todo homem. Nem todo homem. Nem todo homem. Aliás, nem toda mulher. Nem toda criança, nem todo idoso, nem todo jovem. Para as mudanças estruturais, pesquisas, dados, análises, debates. Para o cotidiano, o particular, o próprio, o que faz único, humanos.

Na queda de braço entre saúde no futuro e prazer agora, prazer agora.

Eu devo ser o cara que vocês pegam na balada pois: autoestima da porra.

Arroz por baixo, feijão por cima. Mas, mais verdadeiramente, feijão por baixo, farinha por cima e depois mistura.

Pode fantasia. Fantasia é justamente não identidade. E conta, de forma inequívoca, o que precisamos saber. Não se muda fantasia por decreto. Nem mesmo as de carnaval.

Eu não estou aqui pra perdoar. Nem pra julgar, aliás.



Escreveu “macho” ou “fêmea” e suas derivações, já sei que não vamos convergir. Não importa o que se argumente antes ou depois, o uso da termo indica uma essencialização da humanidade.

Aliás, sobre saúde, eu tenho birra do debate sobre alimentação saudável porque é pautado pelo público classe média 20-50 anos do sudeste. Só lamento.

Nem toda falta de noção é mansplaining.

As pessoas no twitter se acham mega rebeldes, revolucionárias e ficam debochando do povo do FB. Nada mais trivial que isso.

Minha peleja é pra mais pessoas terem mais acesso a mais direitos e não para que as pessoas que tem acesso a (alguns) direitos os percam porque nem todo mundo tem.

Democracia manca é melhor do que nenhuma democracia.

Sou apegada: ainda considero o pensamento de Freud, Vigotsky, Lacan e dos frankfurtianos de primeira geração, o que há de melhor pra se entender um tantinho as estruturas e dinâmicas das pessoas, grupos, movimentos sociais. 

Tenho preguiça da pessoa que: "ah, não quero chamar atenção, mas" aí faz, pela centésima vez, a mesma coisa que fez antes e chamou atenção. 

Esporte é uma forma de arte. Sim, vou acompanhar as Olimpíadas de Inverno.

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Devo confessar que ando apaixonada:



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Minha Pequena Eva


Ontem eu revi o Rei Arthur de 2004 (sim, o filme é ruim) e, agora estou toda enrolada no tempo lendo o Derfel. Um dos poucos casos de causa e efeito comprovados nos seres humanos.

Um mês tão curtinho, umas contas tão grandes.

Vovó, pra que esse saco tão grande? Pra te aguentar melhor.

Evitando a condescendência, caindo na impaciência.

Às vezes, anseio ser um tantinho mais vingativa (ia escrever aspiro, mas a frase ficou feia #dessas)



Eu leio uma série policial que se passa no futuro (não muito distante). Eve é uma policial que não tem memórias precisas da infância, em que foi abusada e abandonada e cresceu no sistema. No primeiro livro ela vai investigar um crime e se apaixona por um dos suspeitos. Ele não é culpado, ajuda a desvendar o lance e eles se casam e a partir do livro seguinte vemos Eve caçando seus criminosos e a relação deles como casal (e ele é multimilionário e tal). Eu já li mais de 20 livros da série e já reli os oito primeiros e uma coisa passou a me irritar. Eve é uma policial – e uma pessoa – que aprecia a Lei. Mais do que isso, ela serve à Lei. Ela tem uma ética rígida em relação a assassinatos e se compromete com a descoberta da verdade e a prática do que pela Lei é a justiça. Roarke, o cara, também cresceu da miséria, ficou rico em golpes e coisas assim e, mesmo que tenha colocado todos seus negócios em ordem por causa de Eve, ele acha que a lei é flexível, que existem ações fora da lei que são justificáveis, que ter é poder. O que tem me irritado é que a série vai flexibilizando as posturas da Eve por causa do relacionamento – até aí, ok, o amor, etc - mas todo mundo, seu capitão, sua assistente, sua amiga, todo mundo mesmo, apoia e incentiva essa mudança. E a própria narrativa é construída de forma a evidenciar que é um lucro pra personagem, que é bom, que tudo bem passar por cima de certos direitos individuais se é pra fazer o bem, por exemplo. A personagem admirável, forte, inteligente, combativa passa, a partir de um certo momento na série, a usar, precisar e mesmo depender do Roarke e seus recursos pra desvendar os crimes. Fuen, fuen (mas vou seguir lendo, me apeguei).

Tentei ver Merli e Rita. Todo mundo diz que são ótimos e eu acredito. Mas não consegui passar do segundo ou terceiro episódio em nenhum dos dois. 

A falta que um Freud faz. 

Ainda sou: a Marquesa fala, em determinado momento, que não casou de novo pra ninguém falar com ela em determinado tom. Mais ainda, pra ninguém sequer achar que tinha o direito de. Além da óbvia identificação, o que mais gosto dessa parte aí nem é o conteúdo em si, mas o reconhecimento de quem somos, como funcionamos, qual nosso limite e desejo. Eu, por exemplo, não dou explicações (ou ainda, muito raramente). Daí que, às vezes estou comentando em posts de amigos e penso: porque mesmo estou me explicando? Apago tudo e vou ser eu em outras bandas.

Uma coisa que eu acho engraçado é criança de 10, 11 anos dizendo: “eu tive muita dificuldade de acreditar em mim no passado”.

Inclusivamente sujidade.

A saudade, tal qual o amor, é um bichinho que rói, rói, rói...


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Cômodo

 Eu adoro o carnaval dos outros.

Quando foi que eu virei a louca da viagem?

Oxigênio: o ano está na sexta semana e eu já reli 12 livros bobos e 4 das minhas bíblias.

Reclamar é divertido, mas no fundo no fundo eu sou uma boba alegre.

A Ju é a Juliana-Fina-Flor-Que-Não-É-Mais-FF-Mas-Sempre-Será mesmo.


A Iara compartilhou uns posts bem legais sobre decoração e, em um deles, o moço explicava o que cada cômodo da casa representava para as pessoas. Este artigo, especificamente, era interessante, mas tinha um monte de furo na teoria, pra começar só funcionaria se as pessoas morassem sozinhas, começassem a decoração do zero (sem presentes, sem heranças) e tivessem acesso a todo dinheiro e oferta de itens necessárias a seu gosto, mas divago.

Eu ia falar mesmo era da minha casa. Faz muito tempo que não quero que ela seja a minha casa, é grande demais, com escadas demais. Mas fui ficando e, assim, ela foi crescendo em mim. O ambiente com o qual me importei de verdade foi a cozinha e ela me faz feliz (embora eu nunca tenha tido o $$ pra fazer tudo que queria, o que tenho me alegra). Ao fazer a cozinha, me fiz. Hoje eu sou uma pessoa que tem temperinhos, que faz pão, que reduz balsâmico, que arruma a mesa com porcelana e cristal pra comer sozinha. Gosto desta eu.

Agora, tenho vontade de um escritório. De ser a pessoa que se estica na poltrona amarela no fim do dia pra tomar um vinho e ler livro fora do kindle. De ser a pessoa que deixa o notebook no andar de baixo. Que imprime as passagens em casa. Que enche um painel de aço com fotos. Que se cansa de trabalhar e fica brincando de girar na cadeira estilo diretor. Que tem pastas organizadinhas com documentos e um pote bagunçado com papéis coloridos. Que escreve recados. Que tem um pote com grãos de café como odorizador da sala. E canecas na estante. 



 Dos mistérios: quando guardarei dinheiro para... 

Colocar os ventiladores de teto nos quartos? 
Arrumar os banheiros: boxes, exaustor, bancadas? 
Consertar o vazamento do vizinho?

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Pizza, tempo e escrita

“Jamais escrevi, acreditando escrever, 
jamais amei, acreditando amar, 
jamais fiz coisa alguma 
que não fosse esperar diante da porta fechada”.

Quando a vida está difícil, uma boa massa, queijo, bacon e vinho. 
Quando não está, também.

Manda carta, bilhete, postal. Manda cartão de natal no meio do ano. Boas festas, quando quer que elas aconteçam. Manda notícia de quem você é, de quem nós fomos, de como nos sabermos ajuda a respirar.

Então tá combinado é quase nada é tudo somente sexo e amizade e a convicção que os russos escrevem os melhores romances.

Você ainda não está com fome, mas já já vai ficar. Tem a preguiça de descongelar alguma coisa. Tem a falta de vontade de comer algo parecido com o almoço. Tem a saudade de ingredientes de outras paragens. O orçamento do mês já no vermelho. Você não quer pedir uma pizza. Você vai acabar pedindo uma pizza.

Não esqueçam de dar uma passadinha na Central do Textão.

Quando você gosta muito da pessoa, mas tem um pouco de preguiça porque ela já leu tudo, fez tudo, pensou tudo.

Eu sinto saudade de quem eu era quando vocês me amavam. E sinto ainda mais saudades de quem vocês eram quando eu os amava.

E eu que achava que entendia o tal “rosto destruído” da Marguerite Duras. Sabia de nada, inocente. Depois desta espinha enorme, magoada, não cicatrizada, um rombo perto do queixo, fora toda a rosácea, aí sim, entendi o rosto destruído. O que pode ser uma excelente notícia, logo, logo vou passar a viver em hotéis e quem sabe alguém me diga: “Eu a conheço desde sempre. Todo mundo diz que você era bonita quando jovem; venho lhe dizer que, por mim, eu a acho agora ainda mais bonita do que quando jovem; gostava menos do seu rosto de moça do que do rosto que você tem agora, devastado”.

Ler é mesmo oxigênio.

Comprar uma caixa bonita e papeizinhos coloridos e todo dia escrever uma memória gostosa, um encontro legal, um pedaço de livro, qualquer coisa que seja eu. Quando ficar velhinha - se ficar velhinha - e esquecida,  ler e me apaixonar por mim mesma. 

Também vou comprar um baralho de tarô ou uma daquelas caixas de versículos da Bíblia. Se vou viver de histórias, que pelo menos tenha roteiristas consagrados. 

Os livros da MD tem sempre essa capacidade de me fazer lembrar que bons sentimentos são inconvenientes, a esperança é superestimada e quanto mais amamos, mais sozinhos estamos.

Você não pediu a pizza. 



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