segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Vivendo e Aprendendo

A gente (a gente sou sempre eu) imita. Internaliza. Generaliza. Comportamentos. Sentimentos. É assim que a gente se prepara pra vida. Como se vestir pra ir à praia, como se sentir depois de um beijo desejado, o que dizer ao cumprimentar noivos. Filmes, livros, parentes, amigos, possibilidades. A gente vai tecendo nossa peneira. Estou preparada pra coisas que, aposto, parte significativa dos meus amigos não saberia o como. Como agir, o que dizer, como ser uma pessoa que passou por aquilo. Eu não estava preparada. E, dias depois, continuo sem o dito e o feito. Nem mesmo o bom e velho “vida que segue” parece compatível. Não saber exatamente o que dói, porque dói, como dói. Aliás, é mesmo dor? Saudade? Revolta? Espanto? Não tenho os elementos, as marcas na trilha, as pedrinhas de João no caminho.



Eu lembro que em 2012 eu pelejava nas caixas de e-mails falando que discurso militante tinha que ser responsável, era diferente de posicionamento e escolhas individuais (por exemplo, mulher ficar sem trabalhar ao ter filhos para aproveitar a maternidade e criar os filhos e talz - jóia como escolha individual, mas não é bandeira feminista. Bandeira feminista é lutar por creche, igualdade salarial, criação de crianças em aldeia, alternativas, possibilidades, políticas públicas e mudanças estruturais e culturais. E, claro, bandeira feminista é respeito às escolhas das mulheres, mesmo que não sejam semelhantes às bandeiras e talz). 2017 e eu continuo neste desejo de um tiquinho de compromisso ao disseminarmos idéias.


Preciso de meias e um adaptador universal de tomadas. Provavelmente de outro mouse. 

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Planeta dos Macacos


Call me nostálgica e, em muitos aspectos, não estará errado. Este fim de semana fiquei brincando de pega-pega com uma gripe e mal saí da cama, que dirá de casa. Aproveitei e vi uma ruma de Planeta dos Macacos. É aí que entra a nostalgia. Como o filme de 2011, com muito mais tecnologia, referências e dinheiro pode ser tão inferior ao da década de 60? Parece que a gente esquece que o que importa é contar uma história. A pressa de fazer tudo acontecer faz perder o fio de meada, a consistência dos eventos, a força dos personagens.
No filme de 60, antes de qualquer conflito ou confronto já sabemos muito sobre os personagens que saem da nave. O que curte ser um desbravador e faria qualquer coisa se soubesse que leva ao conhecimento. O que almejava a glória e a imortalidade. E o líder, aquele que ele não tem vínculos com a Terra, mas se sente solitário. Que é meio cínico (veja a risada que ele dá quando o companheiro de nave coloca uma bandeirinha dos EUA no planeta “descoberto”). É ele que apresenta o que trazem, no balanço que faz antes de seguir a pé: armas, comida e tal. E é ele quem diz, como se fosse cético, sendo apenas ingênuo: eu acredito que em algum lugar do universo há alguma coisa melhor que o homem. O filme nos prepara pacientemente para a jornada, estamos prontos, podemos seguir com ele percorrendo o planeta novo. No filme do Tim Burton nada é convite, tudo é imposto. Do nada o cara sai voando na navinha. Vai por apego ao chipanzé extraviado? Porque ele se sente entediado? Aquela mensagem dos amigos na Terra, qual o sentido? Não sabemos nada do personagem e ele cai no meio de uma caçada, tonto e nós mais que ele. O atordoamento dele passa rápido, o nosso dura o filme inteiro: porque mesmo isso está acontecendo e porque insistimos em ficar até o fim e não desligamos a tv?
Aí vem a captura. No filmão antigão a galera se liga nos trajes exóticos do astronauta. No filme novo, não faz diferença. Zero curiosidade e é porque eles são a espécie dominadora. Aliás, no filme novo não tá claro o porquê. Talvez tenham tentado des-antropomorfizar a civilização dos macacos, mas não conseguiram construir nada no lugar. O filme de 68 é uma jornada reflexiva sobre nossa humanidade, sobre o processo civilizacional e suas limitações. Cada embate de Taylor com os doutos símios é um questionamento sobre nossos próprios processos de produção de cultura/estrutura. Quando Taylor pergunta: do que você tem medo? é uma convocação ao espectador. Sempre que assisto essa pergunta reverbera em mim.

Gosto de tudo no filme de 68 (ou de quase tudo): gosto da forma como o relacionamento entre Taylor e Zira vai se estabelecendo, gosto da crítica evidente à miscelânea entre ciência e religião, gosto que o herói seja um cético escroto, gosto da forma didática como a questão da civilização/evolução é tratada. E gosto demais da cena final, mas é, também, minha maior ressalva, também: neste momento, não precisava ser tão explícito e explicar tudo pro espectador em fala. Dou o desconto pra época, mas mesmo assim me incomoda. Deixa o Taylor cair no chão, ajoelhado e chorar e mostra pra gente a Estátua da Liberdade sem precisar mastigar. Todos nós sabemos que nesse passo não chegaremos em outro destino mesmo. 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Fôlego


Eu entendo cada um dos pecados capitais. Mesmo. Luxúria, como não? Inveja, ira, avareza, preguiça, orgulho, gula. Tudo tão humano. Essa fome de sentir, de viver, de tentar garantir alguma completude, de tentar vislumbrar alguma felicidade. Mas eu realmente tenho dificuldade de lidar com a falta de gentileza.

Outra coisa que entendo: que o vislumbre da finitude seja aterrador. O que tenho dificuldade de lidar: a forma tosca como a sociedade tenta esconder o tema embaixo de um tapete tecido às custas de galhofa, zombaria e desprezo pelo corpo das pessoas velhas.

Status de relacionamento: volto mais cedo da farra pra ver os gols da rodada. 

O pecado capital do fim de semana, inclusive, foi a inveja. Comecei a reparar em um tanto de pessoas vivendo vidas que eu não vivi. Não estou bem certa do que tenho inveja exatamente. Por uma série de escolhas e valores e desejos, abri mão delas. Hoje, se me fossem oferecidas, voltaria a recusar. E, ainda assim, a inveja. De alguma coisa que eu nem sei se está lá. Durma-se com um barulho destes.




E tem o medo. Aquele. De sempre. Que por mais presente que seja, nunca me acostumei com a companhia. Que assombra ainda mais os dias que as noites. Confundo com preguiça. Apelido de procrastinação. Disfarces para ver se o distraio. Ou me engano. E, ainda assim, seu constante hálito frio.

As coisas que a gente aprende prestando atenção. Todas as vezes que revejo Grey’s eu tenho dificuldade de seguir do último episódio da terceira temporada (quando Burke e Cristina não casam) e o primeiro da quarta. Eu vejo outras séries. Leio livros. Assisto filmes. Até trabalho. Procrastino. São minhas férias no Havaí. Que a gente nunca sabe direito o que lá aconteceu. Ou suspeita que nada aconteceu. Mas que precisa ter existido para tomar fôlego.

Eu viajei com minha cunhada. Fomos ao Louvre. Em determinado momento, depois de muitas salas, quadros, esculturas, painéis, ela virou pra mim e disse: deu. Vamos embora. Não aguento mais tanta beleza. Já não estou conseguindo apreciar. Achei de uma incrível sabedoria. Esta semana eu vi Versailles. E sentia exatamente isso ao fim de cada episódio. Que precisava ir embora da série. Havia beleza demais nos cenários, roupas, atores. Para usufruir de verdade eram necessários intervalos. Trapped, então.

A beleza é o véu que esconde o horror. O horror da morte, da falta, da impossibilidade. Encobre, principalmente, o Nada.

A vida é o que me acontece entre uma viagem e outra.  


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Cresce feito mato

No jardim das vidas não vividas, arrependimento é mato.

Aquela dúvida entre comida gostosa e sujar a cozinha limpinha.

Ontem passou na minha tl uma imagem do filme “As 7 Caras do Dr. Lao”. E eu fiquei pensando no quanto fui sendo despretensiosamente forjada por tantas sessões da tarde e corujões. Tenho absoluta convicção que eu nem seria eu sem ele. Aprendi sobre pessoas enzimas catalisadoras. Sobre desejo. Sobre a mágica das/nas desimportâncias. Aprendi sobre a importância do olhar do Outro, do reconhecimento do Outro pra que nossa própria magia aconteça. E aprendi sobre como encarar a compreensão de um futuro de solidão e esquecimento com, como direi, elegância?

Acho que desaprendi a viver o cotidiano. Apesar disso aquela alegria levinha de encontrar a amiga na porta do shopping.

você lembra, lembra, naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos...

Não sou de nostalgias, mas sinto saudades da psicanálise.

Assistindo Trapped e pensando que morar no semiárido nem é de todo mau.



Vira e mexe é preciso recordar:

"Sabe porque, visconde, nunca tornei a me casar? Decerto não foi por falta de encontrar partidos vantajosos; foi simplesmente para que ninguém se desse ao direito de questionar meus atos. Não que eu temesse não poder mais realizar minhas vontades, pois isso eu sempre acabaria por fazer; mas me incomodaria o mero fato de alguém sentir-se no direito de queixar-se; e enfim, porque queria trair apenas por prazer, e não por necessidade"

...e às vezes é muito, muito difícil, sustentar.




domingo, 27 de agosto de 2017

O Lobo e o Leão

Eu não sei com quantos anos a gente começa a fazer retrospectivas e avaliações e talz. Acrescente-se o fato de que minha memória é péssima. Mas, assim, olhando só o que ainda é recente: tantos moços casadoiros.

Está tendo jogo do Flamengo e eu aqui me roendo por não ser sócia-torcedora nem ter mais de 300 reais pra ir assistir ao jogo final.

E aquela vontade de largar tudo e mergulhar em Grey's pra lembrar como é sentir a vida?

No fim de cada intervalo de jogo: "Flamengo é o mesmo". E a impressão de que a vida vai ser um eterno dia da marmota com ocasionais escapadas de avião?


  
Pensando aqui que a série acelerou ou despertou uma certa simpatia por Jaime Lannister e Jorah que, só pelo desenvolvimento dos livros, demoraria ou nem chegaria a aparecer, pela forma como se relacionam com o Ned.

Então, episódio 5. Achei bem incompleto o Torneio da Mão na série. Ok, mostrou que o moço morreu por obra Lannister e fez Mindinho ter uma ou duas piadas, entretanto o espírito do torneio, a sensação de que é uma pálida sombra da verdadeira batalha, com suas mortes mas também com admirações mútuas entre combatentes, etc ficou meio vago. Mas nada que termine com a ovação do Clegane é de todo perdido. Além disso neste episódio temos um pouco de tempo de tela do Bronn – o suficiente pra ganhar meu apreço.

Uma coisa que me incomodou muito na transposição, do livro pra série, do diálogo do conselho sobre matar ou não Daenerys enquanto estava grávida e talz. Na série faz parecer que Ned é contra porque é um boato de Jorah e não porque a idéia em si o repugna. No livro vemos claramente que ele é contra qualquer violência com “civis”, especialmente crianças e talz. Seguida a esse momento tem a única decisão do Ned que questiono. Ele deveria ter partido, não ficado mais um momento pra ouvir intriga de Mindinho (e ainda daria pra ter zils páginas depois, mas não seria a mesma história, né, Welbs). O que ele ganhou além de uma perna machucada? Por outro lado gostei bastante da cena do Renly com o Cavaleiro das Flores (a depilação) e da conversa sobre treino e dom e ser mimado.

Dos desperdícios e esquecimentos: aquela cena do Varys com Ilyrio, os dois conspirando, rola um "nós" mas depois isso se perde nas temporadas seguintes e hoje temos Varys dizendo que sempre foi #TeamDaeneryzzz. 

Das boas adições: este papo Robert e Cersei foi uma beleza de ritmo, texto, direção e interpretação dos atores. A frustração de Robert, a perda de sentido, a frieza autoimposta de Cersei, tudo tão dolorido.


Relendo e revendo cheguei na parte em que Tyrion fica preso no Vale e comecei a lembrar, gente, como ele sofre ao longo da história, né. A gente (a gente sou eu) repara nas dores de Arya e Sansa e talz, mas talvez Tyrion seja o que mais apanha nesse Jogo. 
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